1 Coríntios 1.10-18
(Prédica do culto de 25/01/2026, em São Leopoldo/RS)
Que a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo sejam conosco neste momento. Amém.
Querida comunidade, como mencionei no domingo passado, temos o privilégio de acompanhar, por meio do nosso lecionário e das Senhas Diárias, a leitura contínua da Primeira Carta aos Coríntios. Trata-se de um texto extremamente oportuno para toda a igreja. Por isso, intencionalmente, fiz a troca do Evangelho pela Carta neste domingo, para darmos continuidade à nossa reflexão sobre qual é o papel da igreja e o que Deus espera de nós enquanto igreja.
No domingo passado, ouvimos — e relembro aqui — que, antes da unidade, é preciso que estejamos em Cristo, com Cristo e por Cristo. Não apenas a nossa vida de fé, mas toda a vida da igreja começa em Cristo. Isso é fundamental e serve como prelúdio para aquilo que Paulo também afirma nos versículos que ouvimos hoje.
Há algumas considerações importantes a serem feitas sobre este texto. Tanto no prólogo da carta quanto logo nos primeiros versículos, Paulo enfatiza repetidamente o Senhor Jesus Cristo.
Para nós, que vivemos aqui no sul do país — e no Brasil — onde temos liberdade para confessar nossa fé em Jesus Cristo, isso pode não parecer algo comprometedor. No entanto, naquele contexto, afirmar que Jesus era o Senhor, o Kýrios, era extremamente perigoso.
O título Kýrios era atribuído às autoridades, especialmente aos césares e imperadores. Quando alguém dizia: “O meu Senhor é Jesus Cristo”, colocava-se sob o alerta dos governantes e das autoridades. Era uma confissão que comprometia toda a vida.
Hoje, pela graça de Deus, não enfrentamos esse risco. Ainda assim, é importante compreender por que Paulo insiste tanto em afirmar quem é o Senhor: porque isso compromete profundamente a nossa vida. Talvez isso escape um pouco do nosso imaginário.
Por isso também oramos e cantamos: “Senhor Jesus Cristo, guia-nos”. Mas o que significa chamar Jesus de Senhor? Significa dizer que comprometemos toda a nossa vida com Ele. E é a partir disso que Paulo faz sua exortação.
Exortação é uma palavra firme. Não é algo necessariamente carinhoso. Exortar é dizer: “Precisamos repensar algumas coisas”. Paulo está, de certa forma, chamando a atenção daquela comunidade em Corinto.
Quando Paulo soube, por meio da família de Cloé, que havia divisões na comunidade, isso lhe causou grande preocupação. Era uma comunidade jovem, em uma cidade relativamente nova, e já estava enfrentando o problema das divisões.
Eu confesso que não queria entrar nesse assunto, porque ele é espinhoso, mas quero trazer um exemplo dos nossos dias para ilustrar o que significam essas divisões. Se eu mencionar o nome de um político, metade da igreja pode se revoltar comigo. Se mencionar o nome de outro, a outra metade se revoltará.
Vivemos um momento histórico delicado, extremamente tensionado, e isso está afetando até o nosso modo de ser igreja. É exatamente sobre isso que Paulo fala quando diz que alguns afirmavam: “Eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo”, “eu sou de Cefas”.
Existe no nosso coração uma tendência a criar ídolos, a fabricar figuras às quais dedicamos nossa confiança e devoção. Alguém fala algo que nos emociona, que parece nos representar, e rapidamente trazemos isso para dentro da igreja como se fosse algo absoluto. Mas esses ídolos precisam ser derrubados.
Onde confessamos que o nosso Senhor é Jesus Cristo, não deveria haver espaço para ídolos, pois eles sempre geram divisão. Por isso, não vou citar nomes. Isso apenas desviaria nossa atenção do texto bíblico e daquilo que Jesus espera de nós.
Ele quer ser o nosso Kýrios, o nosso Senhor — o Deus Todo-Poderoso que se fez carne, habitou entre nós e venceu toda forma de trevas e maldade.
Vivemos momentos tensos, e esta carta se torna extremamente pertinente para nós como igreja. Muitas vezes, com nossas atitudes, acabamos dizendo: “Jesus Cristo é meu Senhor apenas se Ele se aproximar do meu viés ideológico”.
Isso é inverter a lógica da fé: é dizer a Deus como, quando e onde Ele deve agir, em vez de fundamentarmos nossa fé naquilo que Ele nos revelou por meio da Sua Palavra.
É um tema difícil, porque é fácil nos posicionarmos ideologicamente. Mais difícil é nos posicionarmos sob a graça de Cristo e afirmar: “Meu Senhor é Jesus Cristo”. Isso exige muito — exige toda a nossa vida.
Por isso, reafirmo: confessar que Jesus Cristo é o Senhor é um compromisso de vida inteira. Da cabeça aos pés: mente, coração, mãos, pés, bolso — tudo. É dizer que não nos submetemos às idolatrias do nosso tempo.
Digo isso com atenção e com carinho, querida comunidade. Se uma comunidade jovem como a de Corinto já foi afetada pelas divisões do seu tempo, imaginem nós, com mais de 200 anos de história e com toda a bagagem que carregamos como igreja em nosso país.
As coisas entram de forma sutil em nossa vida. Vamos nos fechando, dizendo: “Só converso com quem pensa como eu”. Mas Paulo fala em ter o mesmo modo de pensar — e esse modo de pensar está centrado em Jesus Cristo.
Vivemos na era das influências, ou dos influencers. Pessoas que ganham dinheiro para influenciar outras a se posicionarem. Algumas fazem isso de maneira absurda; outras, graças a Deus, o fazem a partir do Evangelho.
Ainda assim, somos constantemente tentados a dizer: “Eu sigo fulano”. E então Paulo, com muita sabedoria, dá um verdadeiro “tapa com luva de pelica”. Uns dizem: “Eu sou de Apolo”, um pregador eloquente. Outros: “Eu sou de Cefas”. Outros ainda: “Eu sou de Paulo”.
E Paulo interrompe: “Parem. Quem foi crucificado por vocês? Foi Paulo? No nome de quem vocês foram batizados?”
Não. Quem foi crucificado, quem pagou o preço pelos nossos pecados, quem venceu todos os ídolos foi o próprio Senhor Jesus Cristo.
É por Ele, com Ele e para Ele que a igreja caminha, como um barco no mar. Há tempestades, sim. Há águas turbulentas. Mas a igreja segue em direção a Cristo.
Cristo é quem nos une. Não são ideologias, nem desejos do nosso coração. Ele conduz o barco rumo à eternidade, ao dia em que estaremos face a face com Deus, onde não haverá mais dor, choro ou luto.
Para chegar lá, precisamos declarar de coração que Jesus Cristo é o nosso Senhor e orar: “Senhor, derruba os ídolos do nosso coração. Faz de nós a tua morada”.
Esse é o Deus que consola, perdoa e abraça. O Deus que está presente desde o nosso batismo, desde o ventre materno, quando ainda nem éramos conhecidos — e Ele já nos conhecia.
Somos reunidos como povo para dizer: não somos seguidores de pessoas, não somos movidos por marketing ou ideologia. Somos o povo de Jesus Cristo.
E isso ecoa em nossas ações. Muitas vezes seremos as mãos de Deus — num abraço, numa palavra de consolo. E se abraçamos apenas quem pensa como nós, algo está errado.
Nossa meta é clara: servir ao Senhor Jesus Cristo e caminhar com Ele até a eternidade, de mãos dadas como povo, unidos pela Palavra e pelos sacramentos.
Querida comunidade, esse é o desejo de Deus para nós: que sejamos um povo que vive em devoção, atento aos ídolos do mundo, mas caminhando em unidade — a unidade que nasce da Palavra de Deus.
Que Deus, em Sua graça, bondade e infinita misericórdia, venha ao nosso encontro, nos guie, nos tome pela mão e coloque em nosso coração o desejo de viver um compromisso real e verdadeiro com Ele, hoje e por toda a eternidade.
Amém.
